quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Mídia quer sangue na greve da Bahia

Por Altamiro Borges

Finalmente, o governo da Bahia decidiu reabrir as negociações com os policiais militares, que estão em greve desde 31 de janeiro. Jaques Wagner, que pode ter subestimado a duração e a extensão do movimento, passou a adotar um tom mais ameno nas suas declarações públicas. Ele ainda insiste em rotular os líderes grevistas de “bandidos”, mas agora já aceita dialogar. Menos mal!


Segundo o jornal Valor, as conversações tiveram início ontem e o governador “disse que acredita numa solução negociada e que não pretende punir os policiais militares que estão em greve desde a semana passada, mas que processará aqueles que fugiram à legalidade nos protestos”. O arcebispo da Bahia, Dom Murilo Krieger, está intermediando as negociações entre as partes.


Os impasses prosseguem

“Não tenho o ímpeto de punir aqueles que participaram pacificamente da greve, mas aqueles que violentaram a lei, depredaram o patrimônio público, e de arma em punho ameaçaram a população, esses seguramente deverão ser processados”, reafirmou Jaques Wagner em entrevista ao jornal Bom dia Brasil, da TV Globo.

O impasse na greve persiste em dois itens: o da anistia aos líderes grevistas e a forma de pagamento da Gratificação de Atividade Policial (GAP). No que se refere à questão salarial, o governo alega que não tem recursos e propõe que o pagamento da GAP seja diluído em três anos. “Ao longo de cinco anos, concedemos 30% de aumento real. Mas eu tenho limite na folha”, alega Wagner.

Paciência e cedências

Com a retomada das negociações, num clima mais civilizado e democrático, a tendência é que diminuam os atos de vandalismo na cidade, alguns deles patrocinados por policiais e já documentados. Mas a negociação exigirá paciência e cedência de ambos os lados – do contrário, o impasse prosseguirá, prejudicando a PM, o governo estadual e, principalmente, a população.

A busca de uma solução negociada para a grave crise, porém, não tem sido a tônica da mídia corporativa. Ela parece apostar no confronto – seja porque isto garante o aumento das audiências e das tiragens, seja por motivos políticos. Alguns “calunistas” não escondem seu desejo macabro de desgastar o governador da Bahia, um dos mais próximos da presidenta Dilma Rousseff.

Folha e Estadão estão excitados

O editorial da Folha de hoje (7), por exemplo, parece querer sangue nas ruas de Salvador. “O movimento dos policiais baianos persegue reivindicações salariais com métodos violentos, em desafio ao Estado de Direito... A Constituição proíbe militares e PMs de fazerem greve”. Para o jornal, Jaques Wagner só deve negociar “sob a condição do retorno imediato ao trabalho e à disciplina”.

No mesmo rumo, o editorial do Estadão compara os grevistas baianos aos “invasores” do Pinheirinho, em São Paulo, e exige mais rigor na repressão. Só faltou elogiar o tucano Geraldo Alckmin pelas cenas de violência e barbárie em São José dos Campos. Para o jornal, ambos os movimentos se “colocam à margem da lei”. Em síntese, não é possível negociar com “radicais”.

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