quarta-feira, 29 de julho de 2015

Zuzu Angel: Quem é essa mulher?

Por Bepe Damasco, em seu blog:

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar
Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu filho
E deixar seu corpo descansar
Quem é essa mulher
Que canta como dobra o sino?
Queria cantar para o meu menino
Que ele não pode mais cantar

(Angélica, letra e música de Chico Buarque de Holanda em homenagem a Zuzu Angel)

Assisti, mais uma vez, na noite de sábado, pela TV a cabo, ao filme sobre a saga da estilista Zuzu Angel em busca da localização do corpo do seu filho, Stuart Edgar Angel Jones, assassinado pela ditadura militar. Por isso, resolvi começar esta semana ensolarada homenageando uma mulher da têmpera, da fibra e da coragem de Zuzu, que pagou com a própria vida por ter acuado a ditadura, na luta comovente de uma mãe para dar um sepultamento digno ao filho.


No momento em que uma onda conservadora e obscurantista assola o país, na qual surfam até boçais que defendem a volta da ditadura, do regime de terror, é sempre importante resgatar a memória dos homens e mulheres que doaram seu sangue generoso em defesa da liberdade e da democracia.

A Comissão Nacional Verdade, que se desdobrou em várias outras nos estados e nas organizações da sociedade, cumpriu um papel histórico essencial. Apurou fatos, circunstâncias e nomes de agentes e órgãos da repressão que sequestraram, torturaram e mataram. O objetivo de oferecer à história do Brasil e às atuais e futuras gerações o resgate da memória e da justiça foi alcançado, mesmo com todas as dificuldades e limitações da comissão.

O Brasil aguarda agora que, a exemplo do que ocorreu nos países vizinhos do continente, se faça justiça. Justiça que não se confunde com revanchismo nem com vingança. Se o STF não tivesse confirmado a impunidade dos torturadores, agentes do Estado, em 2010, com a confirmação dos termos da Lei da Anistia, hoje o Brasil já teria, com certeza, dado passos mais largos para virar em definitivo essa página triste de sua história.

Zuleika de Souza Neto, a Zuzu, nasceu na cidade mineira de Curvelo em 5 de junho de 1921. Em 1947, se casou em Belo Horizonte com o norte-americano Norman Angel Jones, passando a adotar o sobrenome do marido, com quem teve três filhos : a hoje jornalista Hildegard Angel, Stuart Edgar Angel Jones e Ana Cistina Angel Jones.Estilista de moda de sucesso nacional e internacional, Zuzu, já morando no Rio de Janeiro, colecionava prêmios por seus figurinos e coleções.

Estudante de economia, seu filho Stuart ingressa na luta de resistência à ditadura, militando no MR-8. Em 14 de abril de 1971, Stuart é preso, torturado e morto pelo Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa), no Galeão, e dado como desaparecido político. Testemunhas dizem que ele foi amarrado a um veículo da Aeronáutica e teve o rosto colado ao cano de descarga, sendo obrigado a inalar grande quantidade de gases tóxicos. Depois de morto, há indícios de que seu corpo foi atirado ao mar.

Imediatamente tem início a luta incansável de Zuzu pela descoberta do que foi feito do seu filho, primeiro cobrando dos militares seu paradeiro nos porões do regime, e depois que assumissem seu assassinato e dessem conta dos restos mortais.

Zuzu moveu mundos e fundos. Seu drama, que virou notícia nos principais jornais do planeta, sensibilizou de celebridades de Hollywood a personalidades do mundo da política, da música e da literatura, além de organizações humanitárias e voltadas para a promoção dos direitos humanos. Chegou a entregar um dossiê ao então secretário norte-americano de Estado, Henry Kissinger, durante sua visita ao Brasil.

Ela não dava trégua aos responsáveis pelo suplício do seu filho, aproveitando eventos de moda no Brasil e no exterior para denunciar a ditadura brasileira e sua política de torturas e desaparecimentos da qual Stuart fora uma das tantas vítimas.

Depois de uma série de ameaças contra sua vida, Zuzu sofre, em abril de 1976, um “acidente” e morre na Estrada Lagoa-Gávea, na saída do túnel que hoje leva seu nome. Uma semana antes, ela enviara ao compositor Chico Buarque um dossiê para ser entregue à imprensa caso alguma coisa acontecesse. Chico assim procedeu, mas nada foi publicado pela mídia.

Em 1998, a Comissão Especial de Desaparecidos conclui que ela fora assassinada. Testemunhas oculares viram seu carro ser fechado para que rolasse ribanceira abaixo.

Em 2014, em depoimento à Comissão da Verdade, o ex-delegado do DOPS Cláudio Antônio Guerra confirma a participação de agentes da repressão na morte de Zuzu.

ZUZU ANGEL, PRESENTE!!!

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